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João Malheiro, educador
Coluna "Pinceladas Educacionais"

Adolescência feliz: possível?

João Malheiro

Uma das grandes angústias da imensa maioria das famílias é a chegada da adolescência nos filhos.

Entretanto, a tão temida transição da infância para a idade adulta, com suas rápidas transformações físicas, psíquicas e espirituais, pode ser bastante amenizada se os pais têm uma visão mais esclarecida do fenômeno. Infelizmente, muitos tendem a ser um pouco ingênuos e pensar que não devem interferir nessa fase da vida de seus filhos. Argumentam que “o importante é deixá-los experimentar um pouco de tudo, para poderem gozar a vida a que têm direito”. Depois descobrem que quase sempre esses princípios permeados de bondosidade eram falaciosos. Outros querem intervir, mas não sabem o que ou como fazer e sofrem com as reações agressivas e/ou transgressivas dos adolescentes, próprias dessas idades. O objetivo deste artigo é mostrar que é possível se preparar para essa fase e diminuir em parte muitos desgastes emocionais: tantos nos pais quantos nos filhos!

Para que isso seja possível é sempre bom recordar aos educadores quais são os três grandes eixos nos quais giram os conflitos dos jovens nessas idades: a descoberta da própria identidade, o aumento da maturidade afetiva para um amor real e a conquista da verdadeira liberdade. Todos os sentimentos instáveis, todas as reações agressivas, todas as fugas existenciais são explicadas, em parte, por algum desajuste desses eixos. Também se consegue comprovar que todas essas “frentes de batalha” dos adolescentes estão hoje em dia cada vez mais árduas e duradouras. Vejamos alguns exemplos para um melhor entendimento.

Quanto à primeira frente, cada vez mais se veem jovens adultos (entre os 25 e 30 anos) que ainda não se encontraram na vida. Seu entusiasmo em geral gira apenas com “brinquedinhos” eletrônicos, roupas, cabelos, festinhas, tatuagens, sexo, drogas, esportes radicais, visibilidade que não seriam mais próprios dessa idade. Todo o dinheiro que já ganham em empresas renomadas é a grande motivação das suas vidas e este, muitas vezes, é desperdiçado em gastos inconsequentes. Já faz muito anos que costumo fazer um trabalho de coaching com este público-alvo e com frequência encontro “meninos-adultos”, muitos deles já casados e com filhos, mas ainda totalmente adolescentes. Os sinais claros desses atrasos psicológicos se evidenciam em solidão, frustração, vazio existencial, síndromes de todos os tipos e falta de transcendência. Será que podemos dizer que estes “jovens gigantes” alcançaram o verdadeiro sucesso profissional?

Como professor universitário tenho também encontrado com bastante frequência muitos calouros que entraram em determinados cursos porque “era o menos pior”, porque “pode dar mais dinheiro depois”, porque “sei lá”... Os índices de evasão universitária dos primeiros anos beiram os 50% e atualmente é comum encontrar muitos egressos iniciarem uma nova faculdade porque “agora sim encontrei o que eu queria”... Conforme podemos comprovar, esta primeira “frente de batalha” está sendo perdida em grande parte pela juventude. Qual seria a causa disso?

Antes de explicá-la, vejamos a segunda frente da maturidade afetiva, pois ela se relaciona diretamente com a primeira. Segundo o filósofo Rafael Llano Cifuentes, membro da Academia Brasileira de Filosofia, a maturidade ocorre quando a idade psicológica acompanha a idade cronológica, isto é, quando a capacidade de amar está de acordo com a idade existencial. Em um adolescente com 15 anos seria normal que já tivesse no mínimo uns cinco amigos reais, com os quais se confidenciasse profundamente, ajudasse-os para o que der e vier, corrigisse-os sem sentimentalismos, colaborasse para sua saúde física e espiritual. Em um rapaz adulto de 21 anos seria normal que já estivesse noivando, se sentisse seguro no caminho profissional, com valores éticos interiorizados, feliz com um futuro considerado promissor. Em um jovem de 25 a 30 anos, ao qual me referi anteriormente, seria normal que estivesse pensando na família como o seu principal negócio da vida, estivesse preocupado com a sua empresa (seja dono ou empregado) na medida em que em que se preocupa com as pessoas que estão à sua volta e sempre estivesse buscando como efetivamente poderia contribuir para o bem comum da sociedade. Analisando pesquisas sérias com jovens destas idades, descobre-se que a grande maioria está longe deste modelo ideal. Os jovens crescem em alguns aspectos fisiológicos, mas não acompanham na capacidade de amar. Será que existe alguma relação nesse atraso afetivo com o desvendar da própria identidade? Sou da opinião que sim. Aprofundemos um pouco mais.

É comprovado que estamos vivendo já faz mais de 50 anos em uma cultura bastante hedonista/consumista na qual se privilegia tudo o que seja sentir, gostar, desejar, curtir, gozar, possuir, imediatismo, superficialidade, portanto, uma cultura que favorece uma autêntica hiperatrofia afetiva e uma atrofia racional e volitiva. Para quem é educador sabe que esta tendência social é a uma das grandes causadoras dos graves problemas na hora de formar, porque gera no jovem uma vontade débil que o impede de colocar em jogo as próprias capacidades humanas. Uma vontade forte é um elemento imprescindível na busca da felicidade, que nasce e cresce justamente com a descoberta da própria identidade e com a capacidade de amar. Se não houver por parte dos educadores um afã de corrigir essa tendência, além de estarem semeando grandes desajustes para o futuro, estarão dificultando a passagem da adolescência dos filhos/alunos.

Como facilita enormemente um jovem passar por esses terremotos emocionais quando já vê uma estrada, uma meta a atingir e já possui a “gasolina” para avançar nesse itinerário. Quem já foi excursionista, lembrar-se-á da experiência de ter tido que enfrentar uma tormenta em plena escalada. Incomodava, dava medo, mas valorizava alcançar o cume. Analogamente, é o que acontece quando o jovem entra na “montanha russa” da adolescência. Sente medo, sente insegurança, sente ansiedade, mas nesses altos e baixos emocionais manter o olhar para a frente é o que diminuiu a angustia e a depressão. Tendo este pano de fundo, fica fácil entender um jovem de 18 anos com reações agressivas diante dos pais ou professores. Simplesmente, ele está comunicando que está sofrendo porque não está vendo nada na frente e se sente fraco e com complexos de vários tipos. Está pedindo socorro e muitas vezes os educadores não detectam. O que fazer então? É preciso corrigir adequadamente os sentimentos e fugir do emotivismo. Como fazer isso?

Em primeiro lugar, é preciso valorizar a educação da temperança, tanto na infância quanto nas demais idades. O filósofo suíço Rhonheimer a define como “o aperfeiçoamento do apetite concupiscível (aquele que inclina ao prazer), fazendo com que este apetite dirija os sentidos (olhos, paladar, tato...) a valorizar o que é realmente mais prazeroso, não permitindo que o homem seja enganado por eles”. É interessante esta definição, porque a ênfase não é posta tanto na negação, na renúncia ao prazer, mas no aperfeiçoamento do apetite para o prazer material correto. Infelizmente, a pressão social que os veículos de marketing exercem sobre os adolescentes produzem autênticas seduções aos sentidos, levando-os a acreditar que é possível ser feliz satisfazendo apenas as necessidades materiais do ser humano. Quando a criança cresce nesta mentira, é praticamente impossível que ela consiga se desgrudar desse tipo de alegria, dificultando-a olhar e descobrir o futuro. Perguntemo-nos: fica fácil uma criança vislumbrar a sua identidade neste estado interior, uma vez que nenhum ideal se torna realidade sem sacrifício? Parece que não. Por outro lado, quando uma criança experimenta mais cedo as alegrias intelectuais que brotam de um estudo sério, de uma boa leitura, de uma conversa ou reflexão, quase sempre terá mais inclinação para ir substituindo as alegrias materiais e efêmeras por outras mais duradouras, como a conquista da sua vocação... Entende-se agora por que um grande número de jovens decide o curso universitário apenas na fila de inscrição do vestibular? Será só o aumento de opções? Será só falta de informação?

Em seguida, precisamos investir na outra virtude que educa a afetividade e fortalece a vontade: a fortaleza. Esta sempre deve trabalhar em conjunto com a temperança, como um autêntico “motor de dois tempos”. A temperança desgruda o apetite do que não vale a pena e a fortaleza o impulsiona para o que vale, provocando a chamada força centrífuga da motivação. Sair de si mesmo é o que todo o adolescente quer, mas muitas vezes não consegue, e por isso se entristece e se revolta. Quando nasce esta força-doação, o amor real começa a nascer no coração. O anterior, o amor de apetência que parecia que era amor, se desvenda como falso. Detecta-se como um mero “algodão doce”, e como este não sustenta, é lógico que o adolescente também fique perdido neste campo, sinta-se imaturo para assumir compromissos mais sérios e busque a solidão. Como manter forte e bem disposta a vontade? É essencial exercitar-se em pequenos vencimentos diários naqueles aspectos que custa a todo o ser humano, ainda que não se sinta nenhum benefício imediato. Nesses vencimentos deverá existir luta, treino, aprendizagem, tanto na família quanto na escola, para superar a preguiça, a apatia, o orgulho, a busca desordenada de comodidades, o apego ao bens materiais, o egoísmos, etc.

Já podemos concluir que promover as virtudes da temperança e fortaleza durante os primeiros anos da criança é a grande estratégia para facilitar a descoberta da própria identidade e para conseguir a maturidade no amor. Facilitando o vencimento nessas duas “frentes de batalha” da adolescência, indiretamente também se estará favorecendo o vencimento na terceira: a conquista da liberdade humana.

Para conseguir a terceira frente, a autêntica liberdade, deve-se educar no amor à verdade e no amor ao sacrifício da verdade. O grande problema do homem de todos os tempos foi cair na ilusão que se pode viver a verdade sem sacrifício, o que quer dizer produzir a “própria verdade”. Esta é a tão sonhada libertinagem dos adolescentes, que buscam a liberdade absoluta, mas que só existe na teoria ou ficção. Quanto mais educarmos os jovens nas virtudes da afetividade, mais rapidamente eles mesmos desmascarão que não se pode viver sem uma adesão interior ao sacrifício da verdade, pois só ela produz a sensação real de liberdade. Esta, por sua vez, é a que cria também as condições mais favoráveis para a descoberta da própria identidade. Quando vemos muitos jovens adolescentes reclamando dos pais, dos professores, da sociedade, não será que estão reclamando da mentira que vêm ao seu redor? Na sociedade mentirosa em que vivemos, parece que existe nos adolescentes uma disfarçada nostalgia da verdade que é o autêntico desejo da verdadeira liberdade. Isto pude comprovar em milhares de jovens na Jornada Mundial da Juventude, na Espanha, em agosto do ano passado.

Terminemos dizendo que é possível sim que os nossos filhos passem a adolescência de forma feliz, mesmo que tenham que passar um ou outro mau bocado. O segredo está em facilitar-lhes, com a educação das virtudes da afetividade, a descoberta da vocação existencial, que sempre inicia pela profissional. Depois, que lhes fortalecemos a capacidade de amar, aprendendo a suplantar o próprio egoísmo, para que possam corresponder a sua missão. Por fim, que o nosso exemplo de fidelidade e amor seja sempre um ponto de referência para que eles vivam coerentemente a escolha que fizeram, sabendo que essa coerência será sempre o melhor exercício da própria liberdade.

adolescentes sorrindo

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João Malheiro é doutor em Educação pela UFRJ e diretor do Colégio Porto Real, Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. É autor de vários livros como "A Alma da Escola do Século XXI", "Fortalecer a Alma da Escola" e "Escola com Corpo e Alma", da Editora CRV Ltda. É palestrante sobre vários temas de educação em colégios e universidades. Especialista sobre Valores e virtudes ética na escola.

E mail: joao.malheiro@colegioportoreal.org.br

Publicado no Portal da Família em 08/04/2014

 

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