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João Malheiro, educador
Coluna "Pinceladas Educacionais"

EDUCAÇÃO "À SCOLARI"

João Malheiro

A copa do Mundo não trouxe somente o título de pentacampeão mundial para o Brasil. Apesar das críticas que recebeu antes e durante a competição, o técnico Luis Felipe Scolari, o Felipão, adotou um método de trabalho que pode servir de modelo para muitos pais e educadores. O ambiente amigável e familiar da seleção mostrou que só talento não ganha jogo, é preciso também saber educar.

A alegria da conquista da Copa do Mundo 2002 - sem dúvida alguma merecida e inesquecível - propiciou, para muitos, momentos de reflexão e de questionamentos pedagógicos. Quem trabalha na área de educação, surpreendeu-se, algumas vezes, com os seus métodos aplicados e, em determinadas situações, chegou a duvidar de sua eficácia. Porém, penso que diante do enorme diferencial alcançado e demonstrado pela família Scolari durante a competição entre as 32 seleções, pode-se tirar diversas lições, não só para o exercício esportivo, mas também para a vida e para melhorar qualquer prática de ensino-aprendizagem, seja nas escolas ou nas empresas. Muitos talvez aleguem que é diferente educar 23 "marmanjões" do que jovens estudantes, porém, acredito que - mutatis mutandis - na essência, muito pode ser aplicado.

Em primeiríssimo lugar, chamou a atenção como o Dr. Felipão soube equilibrar a exigência com o afeto. Dois aspectos essenciais em qualquer tarefa educacional. Quanto se fala hoje, em certas famílias ou em certos meios acadêmicos e/ou psicopedagógicos dos cuidados que se devem ter para não forçar ninguém a nada, pois pode ser "traumático". Que é proibido falar a palavra "esforço"; que não se pode castigar ou punir; que é proibido proibir, pois, "coitadinhos", poderão se contristar e ficar desequilibrados. A experiência pedagógica de todos os tempos tem demonstrado, como também agora na família Scolari, que o que mais une, que mais aproxima, que mais demonstra amor e carinho verdadeiro é a cobrança, a exigência, a bronca dada com jeito, o aperto, o não abrir mão dos princípios, o exercício necessário, mas muitas vezes sacrificado, da autoridade ("auctoritas", aquilo que faz crescer)...

Quantas fugas deste dever de mandar e quantas omissões, por medo de ficar mal diante dos outros. Quantas desilusões maternas são conseqüências de caprichos feitos aos filhos; quantas decepções educacionais são fruto de professores benevolentes que têm pena dos seus alunos ou de governantes que estão interessados em fazer política através da educação quando deveriam fazer educação através da política.

A explicação destes fenômenos educacionais positivos ou negativos é simples: quando se exige a alguém, não se está pensando na alegria/tristeza sentimental do momento presente, mas na futura, na que vale mais, na que fica para sempre: na conquista do campeonato mundial, nas metas propostas, nos objetivos de médio prazo, nos valores que realizam, na felicidade do outro. A outra, a momentânea, a que parece que é, mas não é, mais cedo ou mais tarde, é descoberta e quem é (mal) educado sente-se enganado. "Para que serviu me deixarem ficar a tarde toda no videogame, se agora não consigo entrar na faculdade, porque não tenho base? Para que a satisfação, antigamente, de todos os meus caprichos na comida se hoje não consigo me controlar na bebida ou em outros prazeres nocivos? Por que me passaram de ano, sem eu saber nada, se hoje não consigo emprego em nada porque não sei nada?" A criança, o aluno, o filho, com o passar do tempo, consegue desmascarar que tudo era ou egoísmo materno/paterno/docente - que queria se sentir bem, que queria se poupar da verdadeira, mas exigente, educação/formação - ou era puro desinteresse. E se revolta, se distancia, se magoa...

Por outro lado, quantas boas recordações - com o passar do tempo - de pais exigentes, de professores que não faziam "negociatas" ou que não condescendiam, de amigos que falavam duro quando era preciso, de técnicos de futebol que não tinham medo da pressão de 170 milhões de pessoas nem da imprensa ! Alguém já dizia que por trás de uma supermãe (superprofessora ) - superprotetora, superfacilitadora, supertransportadora, - há sempre um infrafilho (infra-aluno, infracidadão, infra-amigo, enfim, infra-humano). Por trás de um bom braço de pai, duro e exigente, juntamente com o carinho da mãe, aparecem os filhos equilibrados e vencedores.

Um segundo aspecto que ficou claro durante todo o Mundial e que o Professor Scolari soube transmitir desde o início de seu trabalho é a importância do espírito de família para um bom aprendizado. Independentemente da origem do termo ''Família Scolari'', o que importou mesmo é que ajudou enormemente a criar um ambiente onde o que mais se valorizava era o conjunto e não a individualidade. Em nenhum momento, a expectativa principal do torcedor brasileiro era se tal ou qual jogador estava bem ou ia jogar. O que importava de fato era a "defesa" do time; se havia ligação de "defesa" com o "ataque". Só se falava em grupo, equipe, conjunto, família... Foi impressionante o equilíbrio da equipe no jogo contra a Inglaterra, quando o jogador Lúcio, por infelicidade, deu a bandeja um gol para o atacante inglês! Em outras épocas e em outros jogos - todos lembramos! - a equipe perdia a harmonia e o controle dos nervos após um erro comprometedor. Desta vez, o carinho sincero e a força dos "irmãos" foram decisivos não só para a recuperação rápida do jogador, mas de toda a equipe.

Esse ambiente familiar também é decisivo quando se quer ensinar ou aprender. É tremendamente pedagógico um bom ambiente, é estimulante o bom exemplo dos pais e irmãos no aprendizado. Muitos valores só se aprendem e apreendem quando se vive num ambiente escolar favorável. Aprender bem exige saber ouvir e admirar as características e qualidades dos demais, principalmente dos mais velhos. Na infância e na adolescência, a única certeza que existe é a que ensinam os pais e depois os professores. Uma boa educação pede um clima de diálogo franco e de respeito mútuo. Não há nada de mais deletério, debilitante e, a longo prazo, desesperador para um adolescente, do que não se sentir humanamente ajudado a enfrentar o ambiente com a necessária clareza e decisão, porque lhe faltam pontos de referência objetivos e sobram-lhe conselhos subjetivistas e relativistas. A família e a escola têm responsabilidades formadoras fundamentais para as convicções do jovem e é inconcebível a sua maciça e, muitas vezes, inconsciente superficialidade. Quando Felipão lançou a sua cartilha, e impôs limites para os nossos "marmanjões", quando enquadrou os que precisavam - como deve fazer qualquer bom pai de família, diretor de escola, gerente de empresa - estava criando o ambiente favorável da família Scolari, onde todos devem pensar nos outros e não apenas nos seus gostos e caprichos pessoais. Estava criando a "máquina" que produz o amor familiar, que é o que dá sustentação e motivação para vencer os grandes desafios da vida e do futebol.

Por fim, o último aspecto que gostaria de destacar neste quadro belíssimo da família Scolari e que deveria ser admirado por muitos educadores, é o exemplo de religiosidade de "Patriarca". Quantas pessoas hoje - a maior parte, sem dúvida, por ignorância, por falta de oportunidade, de experiência - confiam mais nas suas próprias capacidades, nos seus talentos, na própria experiência de vida, na força que tem o dinheiro em muitas ocasiões, ou no "tráfico" de influências e desprezam a força da religiosidade. Quando os jornais veicularam que Felipão foi à Missa no dia do jogo do Brasil na Copa, muito nos fez pensar... Sem nenhum constrangimento, pleno de convicções e de fé, nosso Felipão confessou, em mais de uma ocasião, que é nesse encontro dominical com o seu Deus que consegue tirar forças para exercer um cargo que, talvez, seja muito mais sacrificado que muitos outros de maior prestígio social.

Porém, conforme declarou, não obriga o filho mais velho a participar da Missa. Dr. Scolari sabe que nestas matérias de religião, como também nas outras, o "Frei exemplo é o melhor pregador". Quando vemos hoje um líder nacional levantar novamente esta bandeira, quando está tão pouco em moda, da oração, da confiança em Deus, da humildade da criatura diante do Criador, sem dúvida, que só temos a agradecer-lhe por ter tido a coragem de manifestar sua fé para todo o planeta e nos ter ensinado mais uma de suas lições.

Este artigo está longe de pretender "canonizar" um técnico de futebol, que, como qualquer ser humano, tem suas virtudes e defeitos, ou ainda, de querer assinar em baixo de todas as suas teorias táticas futebolísticas. Mas uma coisa é certa: qualquer cidadão brasileiro que esteja sinceramente preocupado em melhorar a educação familiar e escolar tem que reconhecer a sua pedagogia, apesar de ser politicamente incorreta, é uma pedagogia vitoriosa e pode incentivar muitos pais, governantes, educadores a se questionarem e, quem sabe, mudarem certos conceitos e práticas educacionais que foram se cristalizando nos últimos tempos, mas que, infelizmente, têm dado frutos amargos em vários setores da sociedade brasileira.

Fonte: INTERPRENSA - ANO VI - Número 60 - Agosto/2002

www.interprensa.com.br


A copa do Mundo não trouxe somente o título de pentacampeão mundial para o Brasil. Apesar das críticas que recebeu antes e durante a competição, o técnico Luis Felipe Scolari, o Felipão, adotou um método de trabalho que pode servir de modelo para muitos pais e educadores. O ambiente amigável e familiar da seleção mostrou que só talento não ganha jogo, é preciso também saber educar.



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João Malheiro é doutor em Educação pela UFRJ e diretor do Colégio Porto Real, Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. É autor de vários livros como "A Alma da Escola do Século XXI", "Fortalecer a Alma da Escola" e "Escola com Corpo e Alma", da Editora CRV Ltda. É palestrante sobre vários temas de educação em colégios e universidades. Especialista sobre Valores e virtudes ética na escola.

E mail: joao.malheiro@colegioportoreal.org.br

Publicado no Portal da Família em 26/10/2010

 

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