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André Gonçalves Fernandes
Coluna "Lanterna na Proa"

JMJ Rio 2013 - Impressões e Reflexões

André Gonçalves Fernandes

Crônicas da minha visita ao Rio de Janeiro com a família durante a Jornada Mundial da Juventude

Dia 25.07

Em seu discurso no Palácio Guanabara, pude ouvir Francisco dizer serenamente que "nossa geração se demonstrará à altura da promessa contida em cada jovem quando souber abrir-lhe espaço; tutelar as condições materiais e imateriais para o seu pleno desenvolvimento; oferecer a ele fundamentos sólidos, sobre os quais construir a vida; garantir-lhe segurança e educação para que se torne aquilo que ele pode ser; transmitir-lhe valores duradouros pelos quais a vida mereça ser vivida, assegurar-lhe um horizonte transcendente que responda à sede de felicidade autêntica, suscitando nele a criatividade do bem”.

O recado para nós, adultos, é exigente, mas possível. Com uma disposição de entrega: ao aprimoramento pessoal, à família e ao trabalho. No primeiro caso, falo de virtudes e não dessa preocupação obsessiva com um corpo de deus grego. Ou mesmo com a contabilidade diária das mínimas calorias da última moda em dieta. No segundo caso, o protagonismo educativo da prole é dos pais e não da escola. Para isso, é preciso deixar o "happy hour" diário de lado e dedicar tempo para os filhos. No último caso, trabalhamos para viver e não vivemos para trabalhar. E não adianta ganhar mais para ter que pagar uma babá para ficar menos com o filho.

Pequenas entregas para grandes resultados: a juventude herdará um mundo que corresponde à medida da vida humana e que oferece as melhores condições para que cada jovem seja sujeito do próprio porvir e corresponsável do destino de todos. E aqueles de nossa geração que não gostam de botar fé nos jovens deveriam olhar para o espelho e perguntar se o verdadeiro destinatário da descrença não é o próprio reflexo.

Dia 26.07

Em sua homilia em Aparecida, Francisco traçou um verdadeiro programa missionário para os jovens. Para ele, é preciso "mostrar o rosto do jovem cristão que procura unir o testemunho de uma vida autenticamente cristã com as consequências sociais do evangelho" para promover a "revolução do amor".

Amor, eis uma palavra que, à semelhança de muitos remédios, tornou-se um genérico, a ponto desvirtuá-lo em seu sentido mais genuíno. O contrário de amar não é só odiar, mas usar e, na medida em que se usa, abusa-se e transforma-se o sujeito em objeto. Numa cultura utilitarista, viramos produtos aptos para consumo imediato. Como uma pipoca de microondas ou uma batata frita de "drive-thru". A resultante, ao invés de felicidade ou alegria, serão a solidão e o vazio. O amor perdeu a gratuidade e as pessoas "amam" por desejo de ter um amor que não sentem mais.

O amor não tem mais um porto seguro, não tem mais uma família nuclear para se aninhar, não tem mais essa do sacrifício pelo outro. Ficou, embriagado, largado na primeira esquina com que se deparou. Não se diz mais "Deus, quanto amei!", mas "Deus, nem sei quantas (os) amei!". O amor passa a buscar um domínio em duas edições da revista "Caras": na primeira, casa-se num castelo; na segunda, supera-se o trauma da separação numa ilha ou num resort. É o amor moderno, o amor que é eterno enquanto dura: o cético amor do poeta, em cuja rua estou hospedado aqui em Ipanema. Um amor em que não há espaço para a vontade, porque os afetos usurparam seu lugar. Mas o amor vive da prosa da incompletude e isso justifica a poesia da entrega.

Para uma "revolução do amor", coragem e comprometimento são precisos, porque, hoje, todos somos covardes. E, por isso, caminhando ao longo da orla em direção ao papa Francisco no Leme, em busca de uma resposta à minha inquietação, antes, em Copacabana, cruzo com outro poeta, Drummond, sento-me ao lado de sua estátua no banco da orla e ouço dele esta sugestão: "Cansei de ser moderno. Agora, quero ser eterno". E respondo: "Sem duração".

Dia 28.07

A via sacra com o papa Francisco, na data de anteontem, foi um convite para que o jovens, de todas as idades, tenham uma vida de entrega e sejam os protagonistas de um novo mundo.

Em sua mensagem, Francisco convocou os jovens ao comprometimento com um novo ambiente, contagiando a todos com alegria, como sentinelas de um novo amanhecer de esperança.

"Vamos construir pontes em vez de muros", afirmou em sua mensagem. Mas essas pontes devem ser construídas com a estrutura do amor, essa porta que somente se abre para fora e para o outro.

Para a felicidade. Queremos ser felizes e precisamos de modelos. Há a "felicidade" dos livros de auto-ajuda, a "felicidade" oficial do governo e a "felicidade" do poder e do dinheiro. São propostas de felicidade tão pegajosas quanto um chiqueiro: "pegam" na mídia e nas redes sociais. De fato, os porcos chafurdam na lama e, sei lá, devem gozar de uma "felicidade" suína ou "bacon-iana". Mas somos bem mais que porcos. Inclusive os torcedores palmeirenses.

Hoje, o ambiente conspira para um ideal de felicidade que não vai além da busca por si mesmo. A felicidade virou uma autoconstrução do sucesso e, à la Derrida, estou aqui para desconstruir essa filosofia. O Prometeu moderno passa a ideia de que não necessita de ninguém, porque todos são o objeto de seu desejo e, ele, de ninguém.  Essa filosofia de felicidade reduz-se ao consumo do outro: consumo capitalista, afetivo e sexual. Quando a barriga aparece, o cabelo cai e os músculos definham, nosso Prometeu percebe que precisa sair de si, porque sua filosofia de felicidade conduziu-o à solidão. E sua esperança de sentido será um confuso ligar-se sem ligar-se. Afinal, ele nunca soube ligar: nunca construiu pontes, mas muros. E são os muros que, agora, cerram sua vista para horizontes mais amplos, encerrando-o no beco labiríntico do desespero.

Dia 29.07

Passeando pelo Cosme Velho, foi impossível não me recordar de seu "bruxo" mais famoso. Quando Machado de Assis morreu, o século XIX havia terminado há pouco tempo, deixando como legado o materialismo, o historicismo, o cientificismo, o ateísmo, o agnosticismo e uma enxurrada de “ismos” que afogaram diversas mentes promissoras.

Mas Machado era mestre em desconfiar dessas escolas de pensamento, desarticulando seus longos e complexos raciocínios com um olhar irônico e mordaz. Permanecia, porém, a dúvida: todos os “ismos” simplesmente não passavam de um pessimismo?

De lá para cá, outros "ismos" foram incorporados do dicionário filosófico, a maioria resultante de uma combinação dos anteriores: marxismo, socialismo, comunismo, capitalismo, modernismo, pós-modernismo, feminismo, ecologismo entre tantos outros. Todos diferentes entre si, mas, ao mesmo tempo, iguais em tomar uma dimensão relativa da realidade, absolutizando-a. Não raro, pela via revolucionária.

Cada um dos "ismos" prometia nos proteger disso ou daquilo, mas se esquecia de proteger o próprio calcanhar até que a flecha certeira da verdade o acertasse em cheio. Cada um dos "ismos" foi tombando, como Aquiles, levando consigo todo o pesado edifício de suas ideias. Juntos, formaram um cemitério de ideias e revoluções frustradas, cujas lápides dos túmulos refletem, como num mosaico, a paisagem do alto: a paisagem da transcendência, que nos faz intuir que ainda estamos no pessimismo.

Passado mais de um século de sua morte, Machado virou nome de praça, de rua e até de cadeira na ABL. Assim como Brás Cubas não transmitiu a nenhuma criatura o legado de nossa miséria, Machado morreu sem legar à posteridade a solução da pergunta inicial. Mas é uma pergunta que sempre ressurge quando buscamos "novos meios revolucionários fora das realidades da fé e do amor, as quais nos enchem de sentido e dão frutos". Foram as palavras finais da missa de Francisco, proferidas numa manhã em que a fé e o amor foram as únicas fontes de calor contra o frio cortante, o céu vestido de branco e o sol envergonhado na cidade do imortal bruxo do Cosme Velho que, a partir de agora, também é do papa do fim do mundo, cujo maior legado, nessa visita, foi despertar os jovens para a revolução da fé e do amor.  Porque, quando se redescobre a fé na transcendência e o amor ao outro, redescobre-se a fé e ao amor em si mesmo.

JMJ - visão da praia de Copacabana

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André Gonçalves Fernandes é Bacharel em Direito pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (USP). Mestre e Doutorando em Filosofia e em História da Educação pela UNICAMP. Juiz de direito titular de entrância final. Pesquisador do grupo Paideia, na linha de ética, política e educação (DGP - Lattes) e professor-coordenador de metodologia jurídica do CEU-IICS Escola de Direito. Coordenador do IFE Campinas. Juiz Instrutor e articulista da Escola Paulista da Magistratura. Colunista do Correio Popular de Campinas, com especialidade na área de Filosofia do Direito, Deontologia Jurídica, Estado e Sociedade. Experiência profissional na área de Direito, com especialidade em Direito Civil, Direito de Família, Direito do Estado, Deontologia Jurídica, Filosofia do Direito e Hermenêutica Jurídica. Membro da Comissão Especial de Ensino Jurídico da OAB, da Escola do Pensamento do IFE (www.ife.org.br), do Comitê Científico do CCFT Working Group (Diálogos entre Cultura, Ciência, Filosofia e Teologia), da União dos Juristas Católicos de São Paulo (UJUCASP), da Associação de Direito de Família e das Sucessões (ADFAS) e da Comissão de Bioética da Arquidiocese de Campinas. Detentor de prêmios em concursos de monografias jurídicas. Autor de livros publicados no Brasil e no Exterior e de artigos científicos em revistas especializadas. Titular da cadeira nº30 da Academia Campinense de Letras.

E-mail: agfernandes@tjsp.jus.br

Publicado no Portal da Família em 06/07/2013

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