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André Gonçalves Fernandes
Coluna "Lanterna na Proa"

DIA DAS MÃES: PAZ NA FAMÍLIA

André Gonçalves Fernandes

Dia das mães. Ocasião em que os maridos e os filhos se esforçam por esquecer ressentimentos latentes ou evitar discussões, criando-se um clima de harmonia no seio dos lares, a fim de que a protagonista da festa possa receber todos os mimos e carinhos que tem direito.

Salvo engano, certa vez, Aristóteles escreveu que uma verdadeira amizade é como uma mesma alma em dois corpos. Com a permissão do filósofo grego, arrisco-me a dizer que uma verdadeira família é como uma mesma alma em vários corpos, donde decorre um ambiente propício ao advento da paz no lar por conseqüência. Às vezes, tal “alma” costuma dar o ar de sua graça somente em alguns dias do ano, sobretudo nas datas especiais, que tem o dia das mães como exemplo. Com efeito, o que cada membro de uma família poderia fazer para ter uma “alma” igual a do outro?

Antes, é importante descer aos porões abstratos do lar. Começando pelo filho, para se avançar alguns passos em seu quarto, é preciso toda uma estratégia de combate: abre-se uma picada entre revistas (que oscilam do bom ao mau gosto), tênis que nunca visitaram a lavanderia da casa, camisetas ou meias com odores fétidos, cadernos de escola sem capa e cheio de garranchos, papéis de bala, de chicletes e de chocolates que já se incorporaram ao piso, criando um curioso mosaico, sem se esquecer, é claro, daquela lata de refrigerante quase vazia que serve de cultura para uma colônia para fungos. A descrição do banheiro dele fica por conta da imaginação do leitor.

No que concerne ao porão do marido, penso ser interessante transcrever uma carta de uma jovem esposa que li outrora em um livro, onde ela lista as coisas de que mais sente falta nele. Veja-se.

“1. Que, durante o café da manhã, fale comigo e não se dedique a ler o jornal sem me dizer nada; que me conte o que vai fazer nesse dia, ainda que ache que não é importante. 2. Que me beije ao sair de casa e ao voltar. 3. Que diga alguma coisa agradável sobre minha apresentação – Hoje, você está linda! – como costumava fazer no namoro. 4. Que me pergunte como foi meu dia, o que fiz, como me sinto. 5. Que não se mostre mais carinhoso só quando quer ter relações íntimas comigo. Isso é uma coisa que me revolta. 6. Que perca o tempo com seu filho quando chega do serviço e não se feche no quarto com os seus papéis. 7. Que colabore em algumas pequenas tarefas da casa, como preparar a mesa, trazer os guardanapos, tirar as pedras de gelo da geladeira, etc. 8. Que nos dias especiais, leve-me a jantar fora, como fazíamos quando namorávamos ou logo depois de casados e que se arrume e não vá com a mesma roupa com que esteve trabalhando” (in Paz na Família; Francisco Faus; Quadrante; 1 a edição; São Paulo; 1997).

Muito brevemente, passo ao porão da mãe, assegurando-lhe o benefício da dúvida em compensação, já que nem sempre ela é a vítima. Alguma vez, li que existem mulheres que se assemelham com uma emissora de rádio que só toca notícia: a cada quinze minutos “transmitem” informações minuciosas do que lhes dói, das insônias que sofrem, dos contratempos do trânsito, dos defeitos incorrigíveis daquele filho ou da última presepada que a empregada aprontou. Ademais, algumas mães, ao longo do tempo, ficam desleixadas no próprio vestuário, criando as condições para que o marido se sinta tentado a “contemplar” outros horizontes.

Qual o pano de fundo de cada um dos porões? Vejo claramente uma falta de disposição para dominar a tendência ao egoísmo e ao comodismo que carregamos conosco, os quais, sem freios e contrapesos, crescem cada vez mais a ponto de machucar seriamente os outros, instalando-se os conflitos familiares. Somente um esforço constante de resistência contrária por parte de todos fará com que cada integrante da família tenha uma mesma “alma”.

Tal esforço pode ser concretizado em pequenos atos, a saber: procurar entender o outro, saber perdoar, ter espírito de serviço, saber tomar iniciativas, cultivar a paciência, zelar pelos detalhes de gentileza e de educação e ter caras sorridentes.

Com o decorrer dos dias, logo se perceberá uma profunda mudança no ambiente, já que cada pessoa terá uma mesma “alma”, e o lar, que antes mais se assemelhava ao da família de Ivan Ilitch, na famosa novela contada por Tolstoi, ganhará alegria e luminosidade em abundância.



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André Gonçalves Fernandes é Bacharel em Direito pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (USP). Mestre e Doutorando em Filosofia e em História da Educação pela UNICAMP. Juiz de direito titular de entrância final. Pesquisador do grupo Paideia, na linha de ética, política e educação (DGP - Lattes) e professor-coordenador de metodologia jurídica do CEU-IICS Escola de Direito. Coordenador do IFE Campinas. Juiz Instrutor e articulista da Escola Paulista da Magistratura. Colunista do Correio Popular de Campinas, com especialidade na área de Filosofia do Direito, Deontologia Jurídica, Estado e Sociedade. Experiência profissional na área de Direito, com especialidade em Direito Civil, Direito de Família, Direito do Estado, Deontologia Jurídica, Filosofia do Direito e Hermenêutica Jurídica. Membro da Comissão Especial de Ensino Jurídico da OAB, da Escola do Pensamento do IFE (www.ife.org.br), do Comitê Científico do CCFT Working Group (Diálogos entre Cultura, Ciência, Filosofia e Teologia), da União dos Juristas Católicos de São Paulo (UJUCASP), da Associação de Direito de Família e das Sucessões (ADFAS) e da Comissão de Bioética da Arquidiocese de Campinas. Detentor de prêmios em concursos de monografias jurídicas. Autor de livros publicados no Brasil e no Exterior e de artigos científicos em revistas especializadas. Titular da cadeira nº30 da Academia Campinense de Letras.

E-mail: agfernandes@tjsp.jus.br

Publicado no Portal da Família em 06/05/2007

 

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