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André Gonçalves Fernandes
Coluna "Lanterna na Proa"

Belo, Recatado e do Lar

André Gonçalves Fernandes

Há pouco, numa entrevista com segunda dama do país no maior semanário nacional, ela foi qualificada como “bela, recatada e do lar”. Bacharel em Direito, nunca exerceu a profissão e passa o tempo a zelar do filho e de uma agenda social geograficamente dividida entre caríssimos salões de cabelereiro, dermatologistas famosos, restaurantes badalados e redes sociais. Cada um é cada um, como diz o ditado francês.

Todavia, ao agir dessa maneira, segundo os intelectuais das redes sociais, profundamente versados em doxa de botequim, o semanário estaria a “impor” um padrão de comportamento feminino já extirpado da realidade social desde “Maio de 1968”. Preliminarmente, creio que a interpretação dessa turma bem engajada apenas demonstra que, realmente, mais da metade dos universitários brasileiros são analfabetos funcionais. Vamos ao mérito.

Adianto ao ditos intelectuais a impossibilidade ontológica dessa empreitada quanto aos quesitos “recatada” e “do lar” e inutilidade, igualmente ontológica, ao quesito “bela”. Ser ou não “recatada” depende de uma escolha individual. Nesse quesito, a opção da mulher não é por onde o feminismo de gênero manda, onde, aliás, a vadiagem tem bastante espaço, já que existe até uma marcha com esse nome.

Tanto que bem. Apenas sugiro ao leitor masculino que, apesar de a marcha ser autointitulada “das vadias”, jamais ouse chamar uma delas dessa forma, sob pena de ser rotulado de machista. Apenas um ex-presidente e um ator global podem referir-se a elas dessa maneira impunemente. Lamento. Nada como uma vassalagem lógica ideologicamente aplicada.

Prossigamos. Ser ou não “do lar” é algo que, também, felizmente, não dá mais para ser imposto. Se, no passado, existia uma espécie de “ditadura do lar”, hoje, ao invés de se respeitar a liberdade da mulher em escolher o lar, o trabalho ou ambos, prefere-se outra ditadura: lugar de mulher é só no escritório, no laboratório, ao volante ou no chão de fábrica. Curiosamente, nos primórdios do feminismo, a luta não era pelas escolhas das mulheres?

Para o feminismo de gênero, a questão do lar (leia-se, voltado para a família) é irrelevante, pois, antes, o feminismo propõe que o útero seja um grande cemitério demográfico. Nada de filhos que, além de estorvo existencial, perpetuam, na humanidade, o “patriarcalismo capitalista reacionário religioso anti-libertário e sexualmente opressor”.

E, se pretender tê-los, é melhor que a mulher o faça sem relação sexual, coisa antiga e superada, já que “qualquer penetração falocêntrica livremente consentida” simboliza a “superioridade sexualmente ativa do macho da espécie”. Procure uma clínica de reprodução assistida: é mais asseado, dispensa cortejos românticos “machistas” e, como se ignora o doador do esperma, é um misógino a menos no círculo social da mulher.

Por fim, no quesito “beleza”, o feminismo de gênero pretende esgrimar contra a parede. Não me estranha. Boa parte de sua pauta o obriga ao constante treino dessa engenhosa arte. As mulheres, desde sempre, desejaram a beleza estética que, no fundo, resplandece, de certa maneira, a beleza interior da mulher em dimensões como o amor, a afetividade e o pendor ao perdão, nas quais, nós, homens, oscilamos entre o tosco e o adestrado.

“Não existe mulher feia. Existe mulher feminazista”, li, outro dia desses, num muro pichado. Parece que a intuição do imaginário popular sempre está a nos ensinar algo de novo. De fato, as feministas de gênero preferem abrir novas veredas para a estética: não usam mais calcinhas, colecionam demasiada pelugem hominídea nas pernas e nas axilas, não usam mais absorvente (a natureza hormonal da mulher é também machista), enfim, tudo aquilo que a própria Camille Paglia já disse não ser uma atitude feminista, mas anti-higienista.

Só pelo ridendo castigat mores desnuda-se o feminismo de gênero, cujo discurso só engana as desavisadas e que o reduziu, hoje, à caricatura de si mesmo, merecendo ser refundado, porque confunde a coisa-em-si com entes de razão ideológica. Dados objetivos com segundas intenções.

No assunto de hoje, não existem segundas intenções. Apenas as primeiras e são essas as que ficam. Quanto a mim, acompanho a inveja dissimulada do feminismo de gênero, porque vejo, na segunda dama, tudo aquilo que sempre desejei e nunca alcancei: belo e recatado, temas para minha próxima encarnação. Consola-me saber que morrerei “do lar”, porque a alta densidade demográfica da prole sequer me permite ser “do bar”. Com respeito à divergência, é o que penso.

pai, mãe e bebe

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André Gonçalves Fernandes é Bacharel em Direito pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (USP). Mestre e Doutorando em Filosofia e em História da Educação pela UNICAMP. Juiz de direito titular de entrância final. Pesquisador do grupo Paideia, na linha de ética, política e educação (DGP - Lattes) e professor-coordenador de metodologia jurídica do CEU-IICS Escola de Direito. Coordenador do IFE Campinas. Juiz Instrutor e articulista da Escola Paulista da Magistratura. Colunista do Correio Popular de Campinas, com especialidade na área de Filosofia do Direito, Deontologia Jurídica, Estado e Sociedade. Experiência profissional na área de Direito, com especialidade em Direito Civil, Direito de Família, Direito do Estado, Deontologia Jurídica, Filosofia do Direito e Hermenêutica Jurídica. Membro da Comissão Especial de Ensino Jurídico da OAB, da Escola do Pensamento do IFE (www.ife.org.br), do Comitê Científico do CCFT Working Group (Diálogos entre Cultura, Ciência, Filosofia e Teologia), da União dos Juristas Católicos de São Paulo (UJUCASP), da Associação de Direito de Família e das Sucessões (ADFAS) e da Comissão de Bioética da Arquidiocese de Campinas. Detentor de prêmios em concursos de monografias jurídicas. Autor de livros publicados no Brasil e no Exterior e de artigos científicos em revistas especializadas. Titular da cadeira nº30 da Academia Campinense de Letras.

E-mail: agfernandes@tjsp.jus.br

Publicado no Portal da Família em 08/03/2016

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