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Dr. André Gonçalves Fernandes

Coluna "Lanterna na Proa"

Filhos apátridas
Pai ausente: masculinidade em declínio

André Gonçalves Fernandes

O ícone sociocultural que o homem representava, por meio de suas atribuições, valores e atitudes, e que nossa sociedade tinha como algo estável e que o caracterizava como varão, foi bastante alterado, em razão da mudança de imagem que a masculinidade vem sofrendo. E, ao que parece, até o ponto de se tornar algo obsoleto.

Tais mudanças poderiam ser tidas como irrelevantes ou mesmo transitórias, fruto da moda da época. Mas creio que seu alcance vai muito além disso. Algumas contribuições positivas para a masculinidade – por exemplo, a divisão das tarefas domésticas – vêm acompanhadas de outras que não beneficiam em absoluto aquilo que é próprio da masculinidade, como a desconstrução do varão feita pelo feminismo.

Diante disso, o varão não só estará mudando o núcleo de um comportamento comum a todos os homens, mas também o da família a que pertence e, mais precisamente, os padrões de conduta dos filhos varões. E, sob certo ponto de vista, esse fenômeno traz consigo uma forma bem concreta de pai ausente.

Convém lembrar que, quando nos referimos à paternidade, resulta inevitável referir-se à maternidade, já que ambas as realidades estão tão ligadas entre si, atuando reciprocamente de maneira a formar um único tecido no núcleo vital das relações familiares. Queremos dizer que toda mudança nestes papéis projeta-se sobre o outro, a ponto de alterá-lo. São dois lados de uma mesma moeda.

A masculinidade e, mais concretamente, a paternidade converteram-se hoje num problema e numa tarefa. Numa tarefa, porque há muito por fazer diante da fragilidade da masculinidade frente ao atual estágio da feminilidade. Num problema, porque a intenção de unificação das características do homem e da mulher criou uma certa confusão no que diz respeito à identidade sexual.

A ideia de equiparação sexual, fruto das conhecidas distorções de um passado próximo, é muito bem-vinda em diversos campos de atuação do homem e da mulher. Mas, na tarefa educativa, esse fenômeno, levado às últimas consequências, acaba por provocar uma debilitação dos espíritos envolvidos, inclusive dos filhos, abrindo-se espaço para a confusão e a ignorância. Assistir a uma audiência de instrução e julgamento em matéria de família é um verdadeiro doutorado no assunto.

A nova imagem do homem que se busca, no mais das vezes, estimula as velhas e recíprocas hostilidades que existiam entre os sexos e, ao invés de abrir novas portas, cerram-se ainda mais aquelas que já estavam trancadas. Some-se, ainda, o fato de as linhas divisórias entre o masculino e o feminino estarem demasiado confusas na realidade e constituírem um novo obstáculo na busca de uma via necessária de colaboração e complementariedade.

Se alguns papéis masculinos e femininos não estavam bem assentados no seio da realidade familiar – por exemplo, o confinamento da mulher no lar e a distância entre pai e filhos que inviabilizava a confiança recíproca – o que justifica uma mudança, por outro, isso não importa concluir ser necessária uma completa reconstrução de cada gênero. Tanto um como outro têm sua atuação concreta em dimensões e atributos irrenunciáveis, porquanto constituem os fundamentos inalienáveis da identidade pessoal.

A incorporação definitiva da mulher no mercado de trabalho provocou boa parte das mudanças familiares que hoje vemos, influenciando o varão na revisão do papel da masculinidade. Mas, como a revisão transformou-se numa reconstrução, assistimos ao começo do fim da história do patriarcado: o autoritarismo tradicional, que se modificara em coragem, começa a debilitar-se; o distanciamento, que fora substituído pela amabilidade, virou permissividade. E assim por diante.

Crise de autoridade, insatisfação com a nova masculinidade do varão nas relações familiares, multiplicação dos conflitos conjugais, ausência de vitalidade paterna refletida de forma patente na abstenção das responsabilidades familiares, ansiedade e sofrimento ante a perda da identidade masculina e rebaixamento da maturidade paterna ante a mimetização dos hábitos dos filhos. São os campos de batalha que estão nas entrelinhas dos processos de família que julgo diariamente. E cada um trava as batalhas que merece. Com respeito à divergência, é o que penso.

Veja os artigos da série Filhos apátridas:
A figura ausente do pai
Pai ausente: filho sem pátria
Pai ausente: desintegração familiar
Pai ausente: despedida imotivada
Pai ausente: mudança de papéis
Pai ausente: masculinidade em declínio



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André Gonçalves Fernandes é Bacharel em Direito pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (USP). Mestre e Doutorando em Filosofia e em História da Educação pela UNICAMP. Juiz de direito titular de entrância final. Pesquisador do grupo Paideia, na linha de ética, política e educação (DGP - Lattes) e professor-coordenador de metodologia jurídica do CEU-IICS Escola de Direito. Coordenador do IFE Campinas. Juiz Instrutor e articulista da Escola Paulista da Magistratura. Colunista do Correio Popular de Campinas, com especialidade na área de Filosofia do Direito, Deontologia Jurídica, Estado e Sociedade. Experiência profissional na área de Direito, com especialidade em Direito Civil, Direito de Família, Direito do Estado, Deontologia Jurídica, Filosofia do Direito e Hermenêutica Jurídica. Membro da Comissão Especial de Ensino Jurídico da OAB, da Escola do Pensamento do IFE (www.ife.org.br), do Comitê Científico do CCFT Working Group (Diálogos entre Cultura, Ciência, Filosofia e Teologia), da União dos Juristas Católicos de São Paulo (UJUCASP), da Associação de Direito de Família e das Sucessões (ADFAS) e da Comissão de Bioética da Arquidiocese de Campinas. Detentor de prêmios em concursos de monografias jurídicas. Autor de livros publicados no Brasil e no Exterior e de artigos científicos em revistas especializadas. Titular da cadeira nº30 da Academia Campinense de Letras.

E-mail: agfernandes@tjsp.jus.br

Publicado no Portal da Família em 11/11/2012

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